
Se a semana passada terminou com fogueira, esta começou com o mercado administrando o calor. Depois do salto de 5.65% na sexta-feira (7/8), que levou o contrato futuro com vencimento para outubro/26 a 16.45 centavos de dólar por libra-peso — então a máxima de 10 meses —, a segunda-feira foi de consolidação quase educada, com o mercado digerindo os ganhos e Londres marcando o maior nível em 15 meses no açúcar branco, embalado pela estimativa de que a produção da União Europeia e do Reino Unido cairá a 14.98 milhões de toneladas, o menor volume em 11 anos, cortesia da seca e do calor que transformaram os campos de beterraba europeus em paisagem de faroeste.
Na terça-feira, o mercado resolveu que consolidar era pouco: o outubro/26 fechou a 16.73 centavos e o março/27 a 17.71, ampliando o carregamento entre os vencimentos para quase 1.00 centavo — o mercado pagando prêmio para quem carrega açúcar adiante, sinal de que a preocupação não é com o hoje, e sim com o amanhã.
A quarta-feira trouxe o roteiro clássico de todo rali (uma alta forte e rápida nos preços) que se preze: o contrato renovou a máxima intradiária da semana a 17.11 centavos — maior nível em 15 meses — e fechou em queda de 1.85%, a 16.42, com realização de lucros de quem comprou embaixo e não resistiu à tentação de passar o recibo. Durou pouco.
Na quinta, o mercado recuperou o fôlego e fechou a 16.60 centavos, alta de 1.09%, confirmando que o tombo de quarta foi tropeço de corredor, não lesão de atleta.
Déficit global de açúcar e impactos na produção
Por trás da tela, os fundamentos seguem fazendo o trabalho pesado. As consultorias de mercado passaram a semana revisando déficits como quem revisa orçamento de obra: sempre para cima. A Green Pool praticamente dobrou sua projeção de déficit global 2026/27, de 1.76 milhão para 3.3 milhões de toneladas, e outra consultoria mais que triplicou a sua, de 550 mil para 1.7 milhão.
A cereja do bolo veio na sexta-feira, com a Czarnikow estimando déficit de 900 mil toneladas em 2026/27 — produção mundial de 178.3 milhões de toneladas contra consumo de 179.2 milhões — e, mais importante, projetando aprofundamento do desequilíbrio para 2.9 milhões de toneladas em 2027/28, diante da menor disponibilidade de cana e beterraba na Índia, União Europeia e Tailândia. É prudente lembrar que o consumo mundial é de aproximadamente 500,000 toneladas por dia, portanto um déficit de 2-3 milhões, muito embora jogue lenha na fogueira, não representa grande coisa.
Queda na produção brasileira e papel da Índia
Para chegar lá, a consultoria cortou a estimativa do Centro-Sul brasileiro de 39.5 para 38.6 milhões de toneladas, culpando as chuvas intensas de junho e julho que reduziram o teor de açúcar da cana, além de ajustes para baixo nas premissas de moagem e mix. Curiosamente, foram as revisões positivas em China (+300 mil toneladas), Paquistão (+400 mil), Indonésia e Estados Unidos (+200 mil cada) que impediram um número ainda mais apertado — a Rússia, na contramão, perdeu 200 mil toneladas. E a UNICA confirmou com número oficial o que o mercado já precificava: a produção de açúcar do Centro-Sul despencou 26.3% em junho, para 3.903 milhões de toneladas, com parte da cana migrando para o etanol atraída pelo petróleo firme.
A Índia, como sempre, reservou-se o papel de fiel da balança. As monções seguem 12% abaixo da média, mas a notícia da semana é que o governo indiano estuda restringir o uso de cana para etanol na safra que começa em novembro, depois que cerca de 3 milhões de toneladas de açúcar — aproximadamente 10% da produção — foram desviadas para o biocombustível na safra atual. A decisão pode sair até o fim de setembro, com milho e arroz como matérias-primas alternativas. Se confirmada, a medida devolveria açúcar à oferta indiana e seria o primeiro contrapeso relevante à narrativa de déficit que sustenta os preços — motivo suficiente para não apostar todas as fichas em alta contínua e ininterrupta.

